
Em termos gerais, a realidade da imigração no Canadá em 2026 é mais penosa do que há uma década. E não apenas para imigrantes: a realidade do país como um todo também mudou de forma significativa.
As maiores transformações estão na dificuldade crescente para obter a residência permanente e no aumento expressivo do custo de vida quando comparado a 2016. A isso se soma um mercado de trabalho mais restrito, que encolheu ao longo da última década e passou a oferecer menos oportunidades estáveis.
O impacto da pandemia nas cidades
A pandemia de COVID-19 alterou profundamente a dinâmica urbana. Quem chegou a Toronto por volta de 2015 ou 2016 percebe com clareza a diferença entre o período pré e pós-pandemia. O centro da cidade foi uma das áreas mais afetadas.
Com a consolidação do work from home, o comércio deixou de arrecadar com trabalhadores que antes consumiam diariamente durante o expediente. Muitas lojas fecharam as portas, criando um cenário de esvaziamento em áreas que antes eram intensamente movimentadas.
Explosão de trabalhadores temporários
Nos últimos anos, especialmente em 2024, o número de trabalhadores temporários estrangeiros cresceu de forma acelerada. Esse aumento adicionou uma grande massa de mão de obra a um mercado de trabalho já fragilizado, principalmente em províncias como Ontário.
Ao mesmo tempo, sistemas públicos já precarizados passaram a atender um número ainda maior de usuários.
Pressão sobre saúde, educação e creches
Os sistemas de saúde e educação, enfraquecidos por anos de cortes promovidos por governos provinciais, como o de Doug Ford, foram sobrecarregados. O resultado tem sido maior dificuldade de acesso a serviços básicos, como médicos de família, creches e atendimentos especializados.
Essa pressão não surgiu do nada. Ela é consequência direta de decisões políticas que reduziram investimentos em serviços essenciais, mesmo diante do crescimento populacional.
Quem se beneficia desse modelo
Grandes corporações, como Tim Hortons e o grupo Weston, estão entre os maiores lobistas e beneficiários das políticas que incentivam a entrada de trabalhadores temporários. Muitos desses trabalhadores acabam contratados por salários abaixo da média, jornadas mais longas e em condições precarizadas, tentando sobreviver a um custo de vida cada vez mais alto.
A crise habitacional e o custo do aluguel
Ainda atraídos por um “Canadá” que deixou de existir em meados da década de 2010, muitos novos imigrantes encontram um cenário de integração extremamente difícil.
O mercado imobiliário é um dos setores mais afetados. Aluguéis passaram por reajustes severos e hoje consomem até 70% da renda mensal de um trabalhador médio. Onde antes era possível encontrar apartamentos de um quarto na faixa de 1.400 a 1.600 dólares, hoje os valores giram em torno de 2.200 dólares nas áreas centrais e cerca de 1.900 dólares em regiões periféricas como Scarborough, North York e Etobicoke.
Alimentação mais cara
O custo dos alimentos também aumentou de forma consistente. Em Ontário, os preços subiram significativamente nos últimos cinco anos, encarecendo o acesso a itens básicos e pressionando ainda mais o orçamento das famílias.
Mudanças na imigração após Trudeau
Após o fim do governo Trudeau, o novo primeiro-ministro, Mark Carney, iniciou uma reformulação profunda nos programas de imigração, com cortes relevantes no número de residentes permanentes.
Uma das mudanças mais impactantes está no PGWP (Post-Graduation Work Permit). Antes, estudantes de instituições públicas de ensino pós-secundário tinham acesso relativamente amplo ao programa. Com as novas diretrizes, o PGWP tornou-se mais restrito, concentrado em programas específicos e fortemente direcionado a cursos de mestrado e doutorado.
Outra alteração significativa é a limitação do acesso a vistos de trabalho para cônjuges de portadores do PGWP, o que dificulta ainda mais a vida financeira de estudantes internacionais, que antes podiam contar com uma segunda renda durante o período temporário no país.
Programas provinciais, como os Provincial Nominee Programs, também passaram por cortes e ajustes importantes, reduzindo ainda mais as possibilidades de obtenção de vistos de trabalho e residência permanente.
Imigração não é o problema
É importante destacar que os cortes na imigração são apresentados pelo governo Carney como uma tentativa de reduzir a pressão sobre os serviços públicos. Parte da população canadense passou a exigir ajustes no número de imigrantes para recuperar o acesso a serviços e melhorar a qualidade de vida após anos de declínio.
No entanto, usar imigrantes como bodes expiatórios para justificar a piora visível da qualidade de vida em províncias como Ontário é uma falácia conveniente. Esse discurso beneficia governos como o de Doug Ford, que promoveram cortes profundos em saúde, educação e serviços públicos.
Enquanto isso, os maiores beneficiados seguem sendo grandes indústrias que exploram mão de obra barata para ampliar suas margens de lucro, muitas vezes às custas de trabalhadores imigrantes que já vivem em situação precária — inclusive do ponto de vista legal.
No próximo post, vou explorar em mais detalhes as mudanças atuais nos programas de imigração e os caminhos possíveis, hoje, para obtenção de vistos de trabalho, estudo e residência permanente no Canadá.

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